Casa Espírita Missionários da Luz - DIJ – Mocidade > 15 anos – 09/10/2026
Tema: Curas de Jesus – Causas e Efeitos
Objetivos:
Estudar algumas curas de Jesus, pela ótica da doutrina espírita, associando-as com a lei de liberdade.
Bibliografia:
- O Livro dos Espíritos, pergs 258 e 259, 264 (Escolha das Provas); 843 à 845 (Livre arbítrio); 851, 860, 866 (Fatalidade); 872 (Lei de Liberdade);
- A Gênese, Cap. XIV, Cap. XIV, item 31 (Curas); Cap XV, itens 24, 25;
- O Livro dos Médiuns, Cap. XIV – 7. ‘Médiuns curadores’;
- Mateus, 9:1 à 8; Marcos, 2: 1 à 12; Lucas, 5: 17 à 26 - cura do paralítico de Carfanaum;
- Marcos 10:46-52 - Cura cego de nascença;
- Primícias do Reino, Amélia Rodrigues/Divaldo Franco, Cap 7, ‘O Paralítico de Cafarnaum’;
- Luz do Mundo, Amélia Rodrigues/Divaldo Franco , capítulo 25 ‘A Cura Real’.
Adicional:
- Revista Espírita, janeiro de 1864 – ‘Médiuns Curadores’;
- Revista Espírita, abril de 1865 – ‘Poder curativo do magnetismo espiritual’;
- Revista Espírita, julho de 1865 - ‘Cura moral dos encarnados’;
- Revista Espírita, setembro de 1865 - ‘Cura pela magnetização espiritual’;
- Revista Espírita, março de 1866 - ‘Introdução ao estudo dos fluidos espirituais’;
- Revista Espírita, outubro de 1866 - ‘O curador do campo Châlons’;
- Revista Espírita, novembro de 1866 - ‘Considerações sobre a mediunidade curadora’;
- O Evangelho dos Humildes, Eliseu Rigonatti, Cap. 9;
- Evangelho Redivivo, Livro II, Tema 32 - A Cura do paralítico;
- Palavras de Vida Eterna, Emmanuel/Chico Xavier, Cap ‘Recomecemos.
Material: A Gênese
Procedimentos:
Hora da novidade, exercícios de respiração profunda e prece inicial.
Motivação inicial:
- Relatar o conto da cura do cego de nascença - A Gênese, Cap. XV, item 24:
24. Ao passar, viu Jesus um homem que era cego desde que nascera; — e seus discípulos lhe fizeram esta pergunta: Mestre, foi pecado desse homem, ou dos que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego? — Jesus lhes respondeu: Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas, para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus. (...) — Tendo dito isso, cuspiu no chão e, havendo feito lama com a sua saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego — e lhe disse: Vai lavar-te na piscina de Siloé, que significa Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou vendo claro...
==> Como vocês entendem essa resposta de Jesus?
- Depois das respostas, complementar conforme o texto de Kardec, no item 25:
- revela que naquela época o povo judeu tinha a intuição de uma existência anterior; e
- se a cegueira não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso daquele Espírito.
- vemos então a ação da liberdade de escolha daquele Espírito antes da reencarnação: era uma prova. Se Jesus tivesse respondido que o “pecado” era do Espírito, teríamos uma expiação, efeito do uso do livre arbítrio em existência anterior.
==> e porquê Jesus o curou?
Porque a prova dele já estava concluída!
e como foi a cura? Pela ação do fluido curativo de que aquela lama foi impregnada.
Desenvolvimento:
Vamos estudar 2 relatos de curas de Jesus, buscando explicá-las de acordo com a teoria espírita, com foco na cura e na Lei de Liberdade.
Vamos fazer 2 subgrupos, cada um estudando um dos casos, ok?
Caso 1 – Jesus cura o paralítico de Cafarnaum
Caso 2 – A Cura Real (conto de Amélia Rodrigues: a jovem Míriam, paralítica, que não foi curada por Jesus)
Apresentação dos grupos, complementando se necessário.
Caso 1 – Jesus cura o paralítico de Cafarnaum
==> Natanael relata que parecia que Jesus o esperava, que o observou demoradamente em silêncio… Vemos Jesus lendo aquela alma em toda a sua trajetória...
==> aqui vemos, como em outros pontos dos Evangelhos, que Jesus pergunta ao doente se acreditava que Jesus o poderia curar…
E nós? Quando pedimos algo a Jesus, acreditamos ser possível? Realmente queremos que o pedido seja atendido?
Jesus nos orientou com relação ao poder da fé que move montanhas…
==> Outro ponto importante nesse relato, é a força, a intercessão dos amigos que movimenta energias em favor dos doentes queridos. O poder da prece. Agir no bem dos amigos é também uma prece! Não recuaram diante dos obstáculos para levarem o amigo doente até Jesus!
==> Jesus se refere às reencarnações anteriores de Natanael. Conhecia a origem, a causa da enfermidade que o atingiu nessa atual reencarnação. Era um Espírito em expiação que resgatava no corpo paralisado os erros do passado.
==> Vemos nesse trecho que Natanael era resignado, pensava em ter uma vida correta se voltasse a andar. O tempo em que sofreu resignado a doença, abriu seu coração para o desejo de viver de forma nobre. Estava, assim, em condições de merecer a cura. Por isso Jesus disse que os pecados dele estavam perdoados; ele já havia cumprido a cota de reabilitação que lhe cabia.
==> Como a nossa fé é vacilante! Estava a frente de Jesus por conta do apoio dos amigos, e ainda era frágil na fé. Talvez por não achar que merecia essa benção!
==> Jesus o orientou a voltar pra casa, para ter um recomeço, uma vida digna. E o que ele fez? Foi comemorar com os amigos numa estalagem da cidade…
==> O paralítico foi em busca de Jesus buscando a cura, foi atendido por Jesus, mas permaneceu vivendo do mesmo modo de antes da doença chegar. Perdeu a oportunidade de refazer os caminhos.
Fica a reflexão para nós: o que esperamos de Jesus? O que buscamos junto a Jesus?
Que impactos percebemos em nossas vidas após conhecer Jesus?
==> e como foi a cura? Por um passe magnético!
“voltando-se para mim, distendeu os braços e alongou as mãos, falando-me, imperioso: — Levanta-te: toma a cama, e vai para a tua casa.”
==> E esse capítulo do livro de Amélia Rodrigues, relata uma conversa entre Jesus e Simão Pedro, onde Jesus, cansado após todo um dia realizando curas, se mostra triste, pois via (fenômeno de 2ª vista) como estavam muitos dos curados por Ele… :
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“— Por que dizes que não Te compreendemos, Rabi? Estamos todos tão felizes!
— Simão, neste momento, enquanto consideras o Reino de Deus pelo que viste, Natanael, com alegria infantil, comenta o acontecimento entre amigos embriagados e mulheres infelizes.
Outros que recobraram o ânimo ou recuperaram a voz, entre exclamações de contentamento, precipitam-se nos despenhadeiros da insensatez, acarretando novos desequilíbrios, desta vez, irreversíveis.”
Nos faz refletir sobre a benção da dor… O que é melhor? Estar paralisado numa cama ou com liberdade de movimentos porém perdido nas ilusões dos prazeres do corpo, que com o tempo trazem ruínas orgânicas e comprometimentos espirituais?
Como estamos usando o nosso livre arbítrio? Estamos plantando flores ou dores?
Caso 2 – A Cura Real (conto de Amélia Rodrigues: a jovem Míriam, paralítica, que não foi curada por Jesus)
==> Jesus também perguntou o que ela queria d’Ele...
==> também vemos que Jesus a fitou demoradamente e falou pra ela:
"— Andar não é o mais importante na vida como supões. Dar-te-ei muito mais. Vai em paz!"
==> Jesus viu a história do Espírito e não da encarnação como paralítica, e se não a curou, é porque essa era a prova por ela escolhida naquela encarnação. E ela venceu a prova! Se resignou depois ao perceber o que havia ocorrido com muitos dos que foram curados por Jesus. Como foi o caso de Natanael do grupo 1.
Míriam percebeu então, que Jesus havia curado sua alma!
Conclusão
Nem sempre o que pedimos é o de que necessitamos. Jesus sabe o que nós realmente precisamos. Com fé, resignação e coragem, daremos conta dos nossos compromissos e conseguiremos cumprir os objetivos de nossa encarnação atual.
Prece final e passes coletivos
Avaliação:
Encontro com 7 jovens. Estavam meio apáticos. Não demonstraram muito interesse nas histórias, nem conseguiram observar os detalhes que as narrativas traziam.
ANEXOS
A Gênese, Cap. XV, itens 24 e 25 - Cego de Nascença
24. Ao passar, viu Jesus um homem que era cego desde que nascera; — e seus discípulos lhe fizeram esta pergunta: Mestre, foi pecado desse homem, ou dos que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego? — Jesus lhes respondeu: Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas, para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus. É preciso que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem depois a noite, na qual ninguém pode fazer obras. — Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. — Tendo dito isso, cuspiu no chão e, havendo feito lama com a sua saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego — e lhe disse: Vai lavar-te na piscina de Siloé, que significa Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou vendo claro. — Seus vizinhos e os que o viam antes a pedir esmolas diziam: Não é este o que estava assentado e pedia esmola? Uns respondiam: É ele; outros diziam: Não, é um que se parece com ele. O homem, porém, lhes dizia: Sou eu mesmo. — Perguntaram-lhe então: Como se te abriram os olhos? — Ele respondeu: Aquele homem que se chama Jesus fez um pouco de lama e passou nos meus olhos, dizendo: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo.
25. Esta narrativa, tão simples e singela, traz em si evidente o cunho da veracidade. Nada aí há de fantasista, nem de maravilhoso. É uma cena da vida real apanhada em flagrante. A linguagem do cego é exatamente a desses homens simples, nos quais o bom-senso supre a falta de saber e que retrucam com bonomia aos argumentos de seus adversários, expendendo razões a que não faltam justeza, nem oportunidade. (...)
A pergunta dos discípulos — Foi algum pecado deste homem que deu causa a que ele nascesse cego? — revela que eles tinham a intuição de uma existência anterior, pois, do contrário, ela careceria de sentido, visto que um pecado somente pode ser causa de uma enfermidade de nascença, se cometido antes do nascimento, portanto, numa existência anterior. Se Jesus considerasse falsa semelhante ideia, ter-lhes-ia dito: “Como houvera este homem podido pecar antes de ter nascido?” Em vez disso, porém, diz que aquele homem estava cego, não por ter pecado, mas para que nele se patenteasse o poder de Deus, isto é, para que servisse de instrumento a uma manifestação do poder de Deus. Se não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso daquele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade.
Quanto ao meio empregado para a sua cura, evidentemente aquela espécie de lama feita de saliva e terra nenhuma virtude podia encerrar, a não ser pela ação do fluido curativo de que fora impregnada. É assim que as mais insignificantes substâncias, como a água, por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas e efetivas, sob a ação do fluido espiritual ou magnético, ao qual elas servem de veículo, ou, se quiserem, de reservatório.
A Gênese, Cap. XIV, item 31 ‘Curas’
31. Como se há visto, o fluido universal é o elemento primitivo do corpo carnal e do perispírito, os quais são simples transformações dele. Pela identidade da sua natureza, esse fluido, condensado no perispírito, pode fornecer princípios reparadores ao corpo; o Espírito, encarnado ou desencarnado, é o agente propulsor que infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O poder curativo estará, pois, na razão direta da pureza da substância inoculada; mas, depende também da energia da vontade que, quanto maior for, tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tanto maior força de penetração dará ao fluido. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura, seja homem ou Espírito.
Trecho de Primícias do Reino, Amélia Rodrigues, Cap 7, ‘O Paralítico de Cafarnaum’
Natanael Ben Elias, numa estalagem da cidade, exultava entre bilhas de vinho capitoso e amigos truculentos, contando um prodígio que havia acontecido em sua desdita.
“Desde há muito tempo a paralisia e as febres me rondavam o corpo, terminando por imobilizar-me em total prisão, num leito infecto e detestável, impedindo-me qualquer movimento.”
“Ouvi falar d’Ele e chorava por conhecê-lO. Secreta intuição informava-me que Ele poderia curar-me. . .”
Hoje, sabendo-O aqui, em Cafarnaum, pedi a amigos que me conduzissem à Sua presença, e estes, carregando o grabato onde eu expungia minhas amargas penas, levaram-me à casa onde Ele se encontrava. A multidão era tão compacta que não me puderam levar pela porta.”
“Um dos amigos alvitrou erguer-me ao terraço e descer-me pelo teto à sala onde Ele estava. E assim o fizeram. ... descendo-me por ela, atado a cordas, até Ele.”
“A sala apinhada abriu pequeno espaço e, como se Ele me esperasse, fitou-me demoradamente, em silêncio, examinando a minha ruína orgânica. Descerrou os lábios e falou:
— Natanael Ben Elias, crês que Eu te posso curar?
— Sim — respondi-Lhe — creio-o!
Um estremecimento sacudiu-me. Houve um grande silêncio e mesmo o calor pareceu diminuir.
— Senhor! —, exclamei. — Como sabes o meu nome? Conheces-me?
— Sim, eu te conheço, Natanael, desde ontem. Sou o Bom Pastor, e em razão disso conheço nominalmente todas as ovelhas que o Pai me confiou.”
“Não compreendi, confesso, o que Ele disse sobre o desde ontem.
Nunca O vira antes, nem jamais me visitara. . .”
“— Teus pecados — exclamou — estão perdoados!”
“Eu próprio me perturbei.
Quantas vezes eu pensara em seguir uma vida limpa e decente se voltasse a movimentar-me, a acionar as pernas, não saberia dizê-lo.”
“No entanto, àquela hora, eu indagava: seria Ele capaz de perdoar pecados? Não estaria blasfemando?“
“Como se Ele ouvisse os pensamentos mais secretos, sem recear, desafiou:
— Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: Perdoados são os teus pecados; ou dizer: Levanta-te e anda?
E voltando-se para mim, distendeu os braços e alongou as mãos, falando-me, imperioso:
— Levanta-te: toma a cama, e vai para a tua casa.
Oscilei como uma cana ao vento, desejei falar algo e não pude.
Ergui a cama, explodi num grito de ventura: Salve, Rabi! E voltei dando hosanas, ante a admiração de quantos me conheciam.
Não compreendo, porém, o que me sucedeu; parece-me um sonho do qual receio acordar.”
Luz do Mundo, Amélia Rodrigues/Divaldo Franco , capítulo 25 ‘A Cura Real’
(https://search.nepebrasil.org/book-part/?chapter=25&book=536&id=25215) – acesso em 08/10/26
— É como vos digo, nobre Lavínia! Os cristãos constituem o grupo mais cordato de todo o Império, incapazes de desordens ou desrespeito de qualquer natureza. Amam a verdade e obedecem às leis, colaborando eficazmente pelo bem geral. Mesmo quando consideram os governos arbitrários ou injustos, mantêm a mansuetude e porfiam na esperança, mesmo se espoliados ou perseguidos...
Falas, Mirian — redarguiu a outra — como se os conhecesses. E isto surpreende-me. Vives na minha casa como hóspede honrada e querida desde os dias dos meus pais, e jamais supus que privasses com essa gente... Certamente, a sua famigerada Doutrina nascida de um malfeitor que foi justiçado numa Cruz estimula-te e até certo ponto compreendo as tuas simpatias, considerando as afinidades decorrentes da tua raça e dos teus costumes... No entanto, és mulher inteligente, verdadeira diva da música, do canto, e porque não dizê-lo, uma eleita dos deuses se não fosse...
Compreendo respeitável patrícia — acudiu, a interlocutora, comovida. — É-me difícil explicar-vos... A verdade, porém, constrange-me a afirmar-vos, fiel ao respeito que vos devoto, que os cristãos obedecem à ordem...
... Mas não sacrificam aos deuses, ferindo as venerandas tradições de Roma.
Concordo que não reverenciam outros deuses, senão Deus, que é o Único e o Soberano Senhor do Universo.
Espantas-me! Pareces cristã.
Se assim vos pareço, gostaria de dizer-vos que Jesus me fascina.
Blasfemas! Enlouqueceste? Por que nunca m"o referiste?
Jamais me perguntastes, senhora.
Que tens a favor do Crucificado e contra os nossos deuses?
Nada Senhora, nada contra. Somente a favor de Jesus a Quem conheci, faz muitos anos...
Os olhos negros e grandes da mulher nublaram-se de lágrimas, parecendo rever através dos painéis da memória o longínquo passado, vivo e fulgurante na sua alma.
Quando o conheceste, já eras?...
Sim, foi a paralisia que me conduziu à Sua presença.
E Ele não te curou? Não dizem que era taumaturgo?
Não, não me curou o corpo é certo. Não o corpo...
Lá fora o sol causticante de julho e o calor aba fado, desagradável.
No átrio do palácio entre os ciprestes verdes e esguios as duas matronas dialogam e os loendros, sob a forte luz do verão, arrebentam-se em festa de flores perfumadas.
— Escutai-me! Dir-vos-ei... Ouvi falar de Jesus, — fez-se mais bela a narradora cuja tez morena tornara-se levemente pálida — quando os sonhos da juventude ofertavam-me o entusiasmo da esperança. Corriam nas minhas artérias como licor precioso as energias que se transformavam em sonhos na minha imaginação exaltada, face à dor da paralisia cruel que me retinha ao leito desde a adolescência... Diziam que o Rabi lenia as exulcerações de toda natureza, limpava as mazelas do corpo e da alma, e diante d"Ele as enfermidades e os demônios debandavam em retirada... Supliquei que me levassem até Ele, no sítio em que pousava...
A voz embargada, refletia a emoção da expositora, dominada por expressiva saudade, a transparecer na evocação dos fatos.
Ele pernoitava, então, — prosseguiu relatando — na casa modesta de um dos seus de nome Pedro, que, segundo consta, se encontra agora em Roma. Conduzida à Sua presença, perguntou-me com inefável modulação: "— Que queres que eu te faça, minha filha?" — "Que volte a andar, Senhor!"
"A expressão do Seu rosto, aqueles olhos transparentes e puros penetrando-me a face imersa em tristeza, oh!, nunca pude olvidar!
"Fitou-me demoradamente, e depois redarguiu: "— Andar não é o mais importante na vida como supões. Dar-te-ei muito mais. Vai em paz!"
Mas nunca levantaste da cama — arremeteu, irada, a patrícia romana. — E como O respeitas e dizes que O amas?
Por muito tempo — permiti-me referir-vos — pensei também assim. Por que Ele não me curara?
Conheci paralíticos outros aos quais Ele restituíra os movimentos, cegos, surdos, mudos, endemoninha dos que se recuperaram após estar com Ele. Por que eu não?!
"Foi somente a lição do tempo que me fez compreendê-Lo.
"À medida que se passavam os meses e os anos, aqueles beneficiários das Suas mãos e da Sua compaixão voltaram a enfermar e alguns morreram... Outros, após a saúde desertaram dos deveres, acumpliciando-se com males e infelicidades danosos e de difícil elucidação... Eu, porém, continuava paralítica, todavia, paulatinamente fui sendo possuída por incomparável paz, dominada por inexplicável alegria de viver e amar. Transformei minha dor em sorrisos para os mais infelizes do que eu e a minha aflição resignada ensinava em silêncio, conforto e esperança a outros padecentes. " Fez uma pausa, como se desejasse recompor mentalmente a ordem dos acontecimentos, para logo prosseguir, elucidando:
— Aqueles olhos dúlcidos pareciam fitar-me sempre e aquela voz incomparável continuava soando-me aos ouvidos. Passei a amar Jesus...
"Ele, é certo, havia partido. Contaram-me sobre o Seu retorno e reaparecimento, reiteradas vezes... Narraram-me Seus ditos, seus feitos e descobri-me amando-O, através do sofrimento dos que não O puderam conhecer... Fui convidada a participar das reuniões que se faziam em Sua memória e ali, com a cítara e a voz, nos intervalos das narrativas e dos estudos da Sua palavra, eu cantava bendizendo Sua misericórdia e Seu amor...
"Estava curada, não do corpo, mas da alma, que é muito mais importante.
"Vossos pais, quando de passagem por Jerusalém, conhecendo-me convidaram-me a vir a Roma para cantar e ser vossa amiga, então... "
No dia quente, ante a piscina cercada por altivas colunas de mármore, suave olor perpassa.
É como vos digo, nobre Lavínia...
Esse Jesus, sem dúvida, — falou tranquila, então — conquanto os meus respeitos à Lei e às tradições de Roma, pelo que dizes, parece-me um deus.
Não um deus, pois que Deus só um existe, mas o "Filho de Deus", Rei Sublime que está acima de todos os reis...
Cala-te, Mirian, para que ninguém suponha que conspiramos contra o Imperador, e silencia tuas simpatias pelos cristãos...
Não posso, Senhora. Perdoai-me! Quem conhece Jesus pertence-Lhe, entregando-lhe a vida desde então, para que Ele a dirija.
Admiro o teu amor. Respeito a tua fé.
Muito obrigada, nobre senhora. Salve!
E o dia continuava lá fora, vencendo o ciclo do sol...
* * *
Ao entardecer daquele dia, no Circo Máximo, um magote de cristãos era atirado às feras em testemunho de amor a Jesus...
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